O Negociador de Sonhos

Trecho de abertura

Prólogo

4 min de leituraVersão 1Manuscrito concluído

A luz do fim da tarde entrava pelas persianas em faixas oblíquas, dourando o consultório com uma delicadeza quase imprópria para um lugar onde tanta gente entrava para nomear o que doía.

Mark estava sentado como sempre se sentava: pernas cruzadas, coluna ereta, o caderno de anotações apoiado sobre o joelho, a expressão calma de quem aprendera a transformar escuta em arquitetura.

Entre os dedos, a caneta batia de leve contra a capa dura do bloco.

Tac. Tac. Tac.

Do outro lado, Henrique falava.

Era um dos pacientes mais antigos que ainda mantinha. Havia tempo suficiente entre os dois para que a sessão já não dependesse de formalidade. Henrique conhecia os silêncios de Mark; Mark conhecia o modo como ele rodeava certas verdades antes de ter coragem de tocá-las.

— Às vezes eu penso que o pior não é a queda — dizia Henrique, o olhar perdido num ponto baixo da sala. — É aquela sensação de que alguma coisa já vinha desabando antes, só que ninguém percebeu. Nem você.

Tac. Tac. Tac.

Mark ergueu os olhos devagar, mas não respondeu de imediato.

Na parede lateral, o relógio seguia sua pequena mecânica impassível.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Henrique esfregou uma mão na outra, cansado.

— Eu mudo de rotina, mudo de lugar, mudo de gente… mas é como se a mesma rachadura me encontrasse de novo. Como se ela viesse comigo.

A caneta hesitou entre os dedos de Mark.

Sobre a mesa baixa ao lado da poltrona, o antigo pêndulo de esferas metálicas — que Henrique havia tocado distraidamente no começo da sessão — ainda carregava um resto mínimo de movimento.

Clac. Clac. Clac.

O consultório, por um instante, pareceu escutar a si mesmo.

Tac. Tic. Clac. Tac. Tic. Clac.

A voz de Henrique continuava, mas começou a soar mais distante, como se recuasse por trás de uma parede de vidro.

Mark baixou os olhos para o caderno.

A luz sobre a página já não era a mesma.

Ficou branca.

Branca demais.

A caneta parou no ar.

O relógio insistiu.

Tic. Tac.

As esferas bateram outra vez.

Clac.

E então veio outro som.

Fino. Regular. Clínico.

Bip.

Mark não se moveu.

O consultório não desapareceu de uma vez. Foi cedendo. Como se a realidade, por alguns segundos, tivesse perdido espessura.

A claridade invadiu tudo.

Um teto branco.

Metal.

Uma sombra inclinada sobre ele.

Passos rápidos.

Uma voz atravessando a luz:

— Mark…

Tentou erguer a mão.

O corpo não respondeu.

Havia peso demais nele, como se estivesse preso entre dois movimentos contrários: cair e voltar. Nenhum dos dois se completava. Só a sensação insuportável de estar sendo puxado por um lugar que não reconhecia e, ainda assim, de algum modo já temia.

Bip. Bip. Bip.

Uma mão tocou seu ombro.

O mundo voltou de uma vez.

Henrique estava inclinado para a frente, o cenho franzido, a preocupação já sem disfarce.

— Dr. Miller?

Mark piscou.

A luz tornou a ser a do entardecer. O relógio voltou à parede. As esferas estavam imóveis. A caneta ainda entre seus dedos.

Henrique esperou meio segundo antes de perguntar de novo:

— Você está me ouvindo?

Mark puxou o ar devagar, como quem regressa de um lugar sem nome e tenta não deixar isso aparecer no rosto.

— Estou.

A voz saiu mais baixa do que ele esperava.

Henrique continuou olhando.

— Você ficou longe por alguns segundos.

Mark sustentou o olhar dele por tempo suficiente para que a frase não se transformasse em alarme.

— Só me distraí.

Henrique recostou-se de novo, mas não com a mesma naturalidade de antes. Havia agora entre os dois uma fenda mínima, quase invisível, daquelas que ainda não comprometem a estrutura, mas já denunciam que alguma coisa cedeu por dentro.

Mark baixou os olhos para o caderno aberto.

As linhas estavam nítidas demais.

Apertou a caneta entre os dedos, não por nervosismo, mas para testar a firmeza do gesto. A mão obedeceu. Quase normalmente.

— Podemos continuar — disse.

Henrique assentiu, ainda desconfiado.

Do lado de fora, a cidade seguia no seu ruído distante. Dentro do consultório, o relógio retomava o próprio ofício.

Tic. Tac.

Mark ergueu os olhos, pronto para voltar à escuta.

Mas, por um instante breve e gelado, já não soube dizer se aquele som vinha da parede.

Ou de algum outro lugar que ainda não deveria conhecer.

FIM DO TRECHO

Agora eu quero ouvir você.

  • Que impressão Mark deixou em você?
  • A passagem do consultório para a luz branca foi clara ou você perdeu o fio?
  • O final do prólogo deu vontade de descobrir o que está acontecendo?
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